Curiosidades Bíblicas

Coisas que o Rainque está tentando entender

08 abril
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Amor hippie ou yuppie?

hippie e yuppieMuitas vezes os conceitos que a Bíblia nos apresenta são tão amplos e sobre-humanos que não conseguimos apreender todo o seu significado. Isso acontece, por exemplo, quando tentamos compreender os princípios de predestinação, soberania divina, livre arbítrio, responsabilidade humana, etc. Isso pra não mencionar as clássicas antinomias da Trindade e da natureza de Cristo. O que acontece, nestes casos, é a incapacidade lógica que temos de trabalhar princípios eternos por meio de uma mente limitada.

Claro que são casos extremos. Mas o mesmo acontece com outros conceitos não tão complexos que também são suficientemente amplos para gerar controvérsia. Por exemplo, a compreensão que temos do amor. Vou tomar como símbolo dessa divisão duas figuras históricas que se tornaram estereótipos de comportamento: os hippies (revolucionários que nada mudaram nos anos 60 e pregavam o amor livre, entre outras ideias) e os yuppies (reacionários dos anos 80 que perduram até hoje e tiveram na busca de sucesso profissional seu ideal de vida). Me parece que o princípio do amor, entre alguns cristãos, está dividido entre os que defendem um amor hippie e os adeptos do amor yuppie.

O amor hippie parte de um princípio que está correto: que Jesus veio chamar todos os que estão cansados e sobrecarregados (Mt 11.28); que Ele não está aqui para os justos, mas para os pecadores (Mt 5.32). Entretanto, o amor hippie termina por aí: chama os pecadores e esquece o objetivo: para o arrependimento. Porque o pregador deste amor não gosta muito de colocar as verdades inconvenientes sobre o pecado e a consequente separação que ele provoca entre nós e Deus. Assim, pula um ponto fundamental na transformação que o evangelho propõe: o reconhecimento da própria condição, o desejo de mudança e a busca do perdão.

Se o amor hippie se apodera da misericórdia de Deus para pregar a salvação a todo e qualquer excluído que seja – o que é maravilhoso –, esquece que a justificação em Cristo foi paga com um preço muito, mas muito alto: o próprio Filho de Deus sacrificado em meu lugar. E por causa do meu pecado. Por isso, a luta contra essa afronta a Deus faz parte da vida à qual fui chamado. Coisa que o descompromisso hippie tem dificuldades em aceitar.

O amor yuppie parte de uma definição que o restringe do outro lado. Como ele necessita da aprovação bíblica para uma conduta individualista, pautada na competitividade e no progresso econômico, então adota o legalismo como base teórica. A base é o princípio – correto, por sinal – de que amar é cumprir a lei (Rm 13.8-10). O risível na interpretação yuppie é seu caráter reducionista: parte do princípio que se você deixar de fazer exatamente essas coisas – adulterar, matar, furtar ou cobiçar – cumpriu a lei do amor. Acabam deixando de lado o que Oseias profetizou e Jesus reiterou pelo menos duas vezes: a misericórdia vale mais que o sacrifício (Mt 9.13).

Se o amor yuppie se abraça na primeira parte do texto de Mateus 19 – amar a Deus é não adulterar, não matar, não furtar e não cobiçar –, ignora o restante do texto – “vá e venda os seus bens, dê tudo aos pobres e siga-me”. Jesus não apenas nos falou do amor como uma atitude de não fazer algo a alguém, mas sim como uma iniciativa de ir em direção ao outro (Mt 7.12). O evangelho pede atitude de ir ao encontro com misericórdia e compaixão. Coisa que a competitividade yuppie tem dificuldades em tolerar.

Entendo o tempo extremista em que vivemos. Estamos saltando dentro duma dialética maniqueísta que nos coloca em pé de guerra e longe da profundidade da Palavra de Deus. Mas isso não justifica termos que escolher entre um amor hippie ou seu extremo oposto, um amor yuppie.

O amor hippie é aberto a a todos indistintamente e não pede transformação – venha como está e fique assim; o amor yuppie é baseado no legalismo – você no seu canto e eu no meu. O teólogo hippie elimina do seu vocabulário palavras como pecado, arrependimento, transformação; o teólogo yuppie deleta compaixão, misericórdia, caridade. Ambos pecam porque cortam partes fundamentais da amplitude bíblica que procuramos viver. Se o amor hippie arranca a cabeça do conceito – lhe tira a racionalidade da transformação –, o amor yuppie corta suas pernas – a capacidade de movimentação.

Ora, isso é restringir a Palavra de Deus às ideologias que nós desenvolvemos para torná-la mais, digamos assim, realizável. Eliminamos as inconveniências para nos sentir bem conosco e com nossas propostas econômico/sociais. Mas preciso discordar. Se o amor não pode ser definido como um amor hippie, também não pode ser restrito a um amor yuppie. Não dá pra reduzir o amor bíblico a definições irresponsáveis por conveniência social nem a definições legalistas por conveniência econômica.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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28 janeiro
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Jesus e a periferia

Fotografia de Sebastião Salgado

A tendência do capital é de acumular – não de se distribuir, conforme pregam alguns otimistas. Essa característica leva os mercados a gerarem assimetrias regionais, produzindo uma série de centros e periferias que vão do macro internacional (EUA, o grande centro – por enquanto) até relações regionais (São Paulo é o centro brasileiro, por exemplo). Também forma a principal característica social brasileira na qual poucos ricos lucram muito e toneladas de pobres vivem com bem pouco. Logo, cada um de nós, na sua busca profissional, precisa se aproximar do centro para ganhar melhor ou ter sucesso. É natural ir para o centro. Entretanto, contrariando toda a lógica, Jesus Cristo sempre seguiu o caminho inverso. Ele buscou a periferia.

Pra começar, a história da salvação começa num minúsculo povo da periferia do Império Romano. O grande centro era Roma, as coisas aconteciam na península itálica. Os judeus eram uma insignificante população que foi facilmente incorporada à máquina administrativa romana. Mas foi naquele povinho que Deus decidiu apresentar o Messias. O Filho de Deus nasceu na beirada do mundo.

Além de nascer afastado do centro mundial, Jesus também manteve distância segura do centro religioso da Palestina que era Jerusalém – para onde acorriam os pregadores e grandes sábios. Também ficou afastado do centro político, Cesareia. Ele viveu sua infância e juventude na Galiléia, uma região menosprezada (veja João 7.52). Quando iniciou seu ministério, radicou-se em Cafarnaum, pequeno entreposto romano de cobrança de impostos que ficava ao norte. De lá, partia para suas viagens missionárias na Peréia, Galíléia e Decápolis (região helenizada também desprezada pelos judeus). Suas idas a Jerusalém foram pontuais: para comparecer às festas religiosas obrigatórias que sempre redundavam em acalorados debates com os poderosos da religião oficial.

Jesus foi ao encontro dos rejeitados nas periferias. O foco de seu amor eram aqueles que não poderiam dar qualquer retorno de investimento: pobres, viúvas, doentes, prostitutas e alguns malandros dos quais jamais gostaríamos de nos aproximar. Isso sem falar nos que realmente deixavam os judeus com náuseas: os feios-sujos-maus-samaritanos. Não, Jesus não foi buscar o sucesso em Jerusalém. Ele foi ao centro apenas para ser crucificado.

Toda vez que mergulho um pouco na vida de Jesus e em como ele se relacionava com a periferia, me sinto um tanto envergonhado, pois meus olhos estão se fechando para o hecatombe social que ocorre ao meu redor. Estamos nos blindando do problema social que nosso modo de viver criou atrás das muralhas dos nossos condomínios. E reclamamos que nossos governos não nos dão segurança, não nos protegem da periferia.

Quando cheguei a Porto Alegre, fiquei um tanto chocado com o estado lastimável de muitos mendigos. Mas isso foi anos atrás: há muito que estou anestesiado para a miséria humana. Preciso urgentemente “ir e aprender o que significa: misericórdia quero, e não sacrifício” (Mateus 9.13). Não deixar que a miragem do centro – onde necessitamos buscar nosso sustento – nos cegue para a realidade. Não deixar que o propósito de alcançar as classes abastadas (o que é legítimo e necessário, e os quais Jesus não rejeitou) nos faça olhar a miséria com o desprezo pelos “preguiçosos”. Pelo menos para equilibrar um pouco as coisas neste estranho mundo em que vivemos.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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