Curiosidades Bíblicas

Coisas que o Rainque está tentando entender

02 setembro
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Casamento com graça

casamento

Me surpreende a quantidade de casamentos que vão pro brejo. Quando isso acontece, os bicudos se perguntam: o que fizemos de errado? O que deveríamos ter feito para que nossa relação desse certo? Acho que justamente esse é o problema: a ideia de que casamentos desmoronam porque coisas são feitas ou deixam de ser feitas. É um princípio ancorado no legalismo.

O legalismo que diz que um casal não deve se separar simplesmente “porque não pode” não salva casamento; salva apenas as aparências. Cumprir uma série de obrigações para que o outro continue a amá-lo também não resolve os problemas que surgirão. Ousarei mais ainda: a perseverança de um cônjuge em aceitar ser pisoteado ao longo dos anos também não resolve nada – apenas mantém a família junta, mas não em comunhão. Fria, gelada, distante.

Acredito que a crise que leva os casamentos ao seu final não vem pelo que se faz, mas tem origem no que cada um dos cônjuges pensa. É uma questão fundamental de crença. E aqui vai uma explicação que você pode estranhar: trata-se de mais um dos respingos da incompreensão generalizada em relação à salvação pela graça e não pelas obras. Muitos crentes que conheço repetem esta verdade como um mantra, mas jamais a interiorizaram de fato.

A salvação pela graça parte de um fundamento desagradável, mas imprescindível: eu sou um pecador, miserável, incorrigível. Eu sou uma porcaria. Ponto. Necessito da graça de Deus, daquele presente imerecido ao qual posso apenas aceitar apesar de mim. Paulo havia entendido isso e não deixava de lembrar: “Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior. Mas, por isso mesmo alcancei misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência, usando-me como um exemplo para aqueles que nele haveriam de crer para a vida eterna” (1Tm 1.15-16).

O entendimento da graça não é somente para quando você se converte; é condição para a nossa prática diária, seja na sociedade, na igreja ou na família. Devo sempre lembrar que não sou digno, que o bem que pode vir de mim foi obra do Espírito (Fp 2.13). Mas, quando vou para o relacionamento com minha esposa, de repente me torno um camarada muito legal que teve a infelicidade de se juntar com essa desgraçada. Quando penso no meu relacionamento com meu marido, sou a Madre Teresa que se casou com esse miserável. Assim, foi-se a teologia junto com a capacidade de ser feliz e ajudar o outro na sua felicidade. Desfazemos o princípio da nossa culpabilidade, esquecemos a graça e passamos a exigir as obras do outro e a nossa própria.

Mas isso não vai funcionar. Você só irá perdoar o cônjuge se partir do princípio que é tão falho e pecador quanto ele – o bom e velho “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6.12). É uma noção de culpa e perdão circular: perdoo porque a mesma indignidade que está naquele que me ofendeu está em mim. Os casais precisam se apropriar do entendimento fundamental de que são duas porcarias que se uniram e vão viver juntos.

Por isso, insisto: o que constrói um casamento é a compreensão da graça, de entendermos que não somos dignos do amor de Deus, e que mesmo assim ele nos amou e perdoou na cruz de Cristo. Que não somos dignos do perdão do outro, mas mesmo assim ele nos perdoa. Que o outro deve ser perdoado, porque eu também não sou grande coisa. E assim está completo o círculo virtuoso que construirá um amor atuante, verdadeiro e perene. Sem máscaras, sem fingimentos, sem idealizações.

Que só funcionará quando ambos aceitarem esta verdade.
Aí, sim, o casamento terá graça.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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01 julho
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Menos José, mais Deus

José e a esposa de Potifar, de Bartolomé Esteban Murillo, 1645.

Há uma tendência pragmática nos estudos bíblicos atuais. Em outras palavras: se algo que foi estudado na Escola Bíblica do domingo não pode ser utilizado na prática da segunda-feira, não serve. O povo tem que aplicar a Palavra na vida cotidiana, isso é o que importa. É o princípio do “cinco passos para…”. É evidente que a relação com Deus deve reger nossa ética diária. Entretanto, tal postura epistemológica nos leva a compreender as Escrituras quase exclusivamente a partir da ação e reação humanas.

Um exemplo clássico do posicionamento pragmático é a história bíblica de José no Egito. Desde criancinha, vejo a longa narrativa de Gênesis contada e recontada da ótica do próprio José: “veja como ele foi persistente, mesmo passando por terríveis adversidades; foi fiel a Deus e Ele o colocou no topo”. O foco do aprendizado é quase de uma auto-ajuda: se você for fiel e ético, Deus o recompensará no final das contas. Isso tudo é, em parte, verdade. Mas tenho cá com meus botões que o texto nos mostra bem mais do que isso. Penso que devemos ver a história de José pelo viés da ação misteriosa e soberana de Deus.

Para isso, precisamos partir do que o profeta Isaías compartilhou: “Verdadeiramente tu és Deus que te escondes, ó Deus e Salvador de Israel” (Is 45.15). Não podemos ver onde e como Deus age. Esse Deus misterioso revelou a Abraão, lá nos primórdios da história bíblica, que abençoaria todos os clãs da terra por meio da sua descendência (Gn 12.1-3; 28.12-14). Ou seja, em todas as narrativas veterotestamentárias há uma perspectiva encoberta de longuíssimo prazo. É sob essa perspectiva que devemos ler também José.

Pra começar, a bênção que Deus daria ao mundo todo veio por uma via bem misteriosa: por meio de uma família pouco exemplar. Jacó, seguindo exemplo de Abraão e de Isaque, tinha preferência descarada por um dos filhos em detrimento dos outros; esse filho preferido gostava de se exibir ao narrar o sonho em que ele claramente aparecia como senhor de todos; e tudo isso provocou o ciúme e ódio dos irmãos que chegaram ao extremo da traição e venderam o rapaz como escravo. Este é o primeiro mistério com o qual nos defrontamos na história de José: a bênção que Deus prometeu teria por canal um pessoal um tanto problemático.

Depois disso, nada melhorou. Apesar de José se manter íntegro, seu destino foi o de alguém esquecido no fundo de uma prisão (Gn 40.23 e 41.1). O pobre rapaz ficou mofando lá durante dois anos. A partir de então, o narrador nos mostra que o Altíssimo revelou ao Faraó, rei de uma nação pagã, o que Ele faria no mundo nos 14 anos seguintes (enviaria 7 anos de fartura seguidos de 7 anos de miséria). Aqui preciso lembrar: não foi José quem teve a revelação; foi o Faraó. José apenas foi chamado para interpretar o que Deus revelara ao rei do Egito. Este é o segundo mistério: Deus não se revela somente aos “vasos santos e consagrados”. Além disso, a mão que dá é a que tira: Ele estava enviando tanto a fartura quanto a fome e o posterior livramento por meio de José (Gn 41.25-36).

José foi colocado no posto de grão-vizir do Egito e casou-se com uma sacerdotisa de um culto idólatra – de quem traria para dentro do povo de Deus duas tribos de matriz egípcia (Manassés e Efraim). A partir de então, reapareceram os irmãos, reunidos pela fome (veja só!). José, possivelmente desconfiado, testou sua honestidade. Para nossa surpresa, Judá se ofereceu para padecer no lugar do irmão mais novo (Gn 44.33-34) numa atitude contrária ao que todos eles fizeram anteriormente. Justamente aqui que aparece aquele que penso ser o terceiro mistério: Deus operara nos irmãos de José uma transformação que o próprio texto bíblico não relatou. Algo aconteceu com eles durante os 17 anos que se passaram e o narrador não se preocupou em explicar. Não há como dar conta da amplitude da ação divina.

Por isso, fica a mensagem que o próprio José percebera ao final daquilo tudo: “Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês. (…) Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes as vidas com grande livramento” (Gn 45.5,7). Mais adiante, ele afirma: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos” (Gn 50.20).

Notem: ele nunca disse “eu fui fiel, me mantive firme e Deus me recompensou”. O tempo todo, teve a percepção de que havia algo muito maior do que a própria felicidade dele que estava em jogo. Este é o grande mistério que envolve a história: Deus planejara tudo, e usando até mesmo o mal, livrou o Egito, livrou José, livrou sua família e a longo prazo salvou o mundo todo pelo descendente prometido de Abraão, Cristo. Não temos como perceber o bem que Deus fará, nem saber os meios que usará, nem tudo o que está em jogo quando Ele o faz. Por isso, somos chamados a viver na dimensão misteriosa da fé.

Voltando ao propósito inicial desta reflexão: não precisamos dar um sentido absolutamente pragmático a tudo o que estudamos na igreja. Podemos perder mensagens muito profundas e reveladoras ao nos mantermos apenas no aspecto do que “devo ou não fazer em cada circunstância da vida”. Não que isso também não seja importante; mas a teologia serve para alargarmos nossa compreensão da ação soberana de Deus nas nossas vidas para Seus propósitos.

Por isso, gostaria de ver nos estudos bíblicos das nossas igrejas um pouco menos de José, e um bocado a mais de Deus.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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26 junho
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Quase apóstolos

Incredulidade de São Tomé, de Caravaggio.

Suspiro cada vez que leio alguma notícia ou texto assinado por alguém que se intitula “apóstolo”. Mais um monstrinho no bestiário evangélico contemporâneo. Daí que resolvi deixar esta pequena reflexão para compartilhar alguns critérios que podem ser úteis para pensar um pouco sobre a seriedade das nomenclaturas que usamos.

Tudo começa pela discussão da etimologia da palavra apóstolos (απόστολος). É uma palavra grega que significa “enviado, mensageiro, embaixador”, utilizada por Jesus para designar os discípulos (Lc 6.13-14) que foram enviados para as missões. Assim, o apóstolo seria alguém com autoridade espiritual concedida por Jesus para pregar a Sua palavra. Alguns textos bíblicos nos dão a entender que diversos outros foram considerados apóstolos além dos 12 discípulos mais próximos do Senhor: Tiago (Gl 1.19), Andrônico e Júnias (Rm 16.7) e Barnabé (At 14.12-14).

Bem, baseado nestas informações, alguns afirmam que poderíamos ter apóstolos em todos os tempos, porque continuamos tendo homens com autoridade espiritual enviados por Jesus para pregar o Evangelho. Podemos resumir a encrenca apenas nesse ponto?

O problema é que há outros critérios vinculados a essa missão que precisam ser levados em conta. É preciso historicizar o termo. A pregação das boas novas da igreja primitiva estava vinculada a um anúncio fresquinho, baseado em diversas testemunhas oculares: Cristo ressuscitou! Esta era a grande pregação da igreja nas primeiras décadas. Qual a função do apóstolo naquele contexto? Era a da testemunha ocular, quem afirmava a quem quisesse ouvir: “eu vi o homem vivo depois da cruz”.

Ser uma testemunha, ou seja, ter visto o Cristo ressuscitado em carne foi o critério exigido pelos onze quando escolheram o 12º guerreiro a compor sua távola redonda: “é necessário que escolhamos um dos homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até o dia em que Jesus foi elevado entre nós às alturas. É preciso que um deles seja conosco testemunha de sua ressurreição (At 1.21-22).

Apóstolo, portanto, no seu sentido pleno, foi alguém enviado por Cristo para testemunhar Sua ressurreição, confirmando que Suas palavras eram verdadeiras. Para comprovar este critério, basta verificar qual o argumento utilizado por Paulo na luta contra opositores quando defendia seu apostolado: “Não sou livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Não são vocês resultado do meu trabalho no Senhor?” (1Co 9.1). Mais adiante, vincula sua autoridade justamente ao fato do Ressuscitado ter aparecido para ele depois do tempo devido: “Depois [Jesus] apareceu a Tiago e, então a todos os apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora de tempo.” (1Co 13.7-8). Paulo tinha constantemente que defender sua posição: também vi o Senhor vivo, sou apóstolo – mas depois dos outros.

A igreja fundamenta sua fé na autoridade e testemunho dos apóstolos que tiveram, de alguma maneira, um contato direto com o Senhor. É o que se fala, por exemplo, ao final do evangelho de João: “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e que as registrou. Sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21.24).

Bem, em resumo, temos que ter dois critérios para que consideremos alguém apóstolo:
1) ter autoridade espiritual concedida por Cristo para ser Sua testemunha;
2) ter visto Jesus ressuscitado em carne.
O primeiro critério, não duvido que muitos o tenham em nossos dias; mas para o segundo é necessária uma experiência histórica ou uma epifania muito, mas muito, mas muito especial. Os atuais “apóstolos” viram o Senhor em carne e podem testemunhar de sua ressurreição? Não creio. (Embora não duvide que algum deles ouse fazer tal afirmação…)

Pra terminar esta reflexão, fica uma pergunta final: por que esse pessoal resolveu utilizar o termo agora, tantos séculos depois? Só vejo uma razão: estabelecer poder sobre as pessoas. O título de pastor é pouco; bispo já melhora, mas ainda não comporta um ego superlativo. Agora, apóstolo, sim. Esse manda, ouve o sussurro do Santo. Tal título pairando acima dos outros mostra claramente com quem você está falando. É uma espécie de carteiraço espiritual.

Só que eles nada mais são do que quase apóstolos. Por um detalhe de 2000 anos.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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18 junho
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Pátria amada, idolatrada

Bandeira brasileira com a máxima positivista no centro, "Ordem e Progresso"

Quando eu era criança e mais ignorante que agora, cantava o Hino Nacional e ficava perturbado com a expressão “Pátria amada, idolatrada, salve, salve”. Perguntava: mas isso não é idolatria? Então me explicavam: a letra diz ‘idolatrada’, mas não é isso que fazemos de verdade; nós só adoramos a Deus. É como quando dizemos que ‘adoramos’ comer algo. Bem, me satisfiz com a explicação durante 30 anos. Até que fui surpreendido pela análise do historiador português Fernando Catroga, autor de “Nação, Mito e Rito”. Neste livro, Catroga demonstra a construção da religião cívica a partir de três exemplos: os EUA, a França e Portugal.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, foram fabricadas as nações contemporâneas na forma de Estados-Nação depois dos processos de independência e de proclamação das repúblicas. Junto com a organização política era necessário legitimar as novas empreitadas políticas. Como fazer isso? Onde buscar essa noção de coletividade nacional que integrasse o homem comum – algo do tipo “esta terra é minha, este povo é meu, morro por eles”? A resposta, segundo Catroga, estava naquilo que o humanismo vinha rejeitando há poucos séculos: a religião. O que os construtores dos Estados modernos perceberam é que ali havia um poderoso recurso motivacional que poderia unir o povo em torno do seu propósito. Símbolos, rituais, hinos e ideias da religião poderiam ser transformados para um fim cívico.

No caso francês, a religião foi completamente substituída: Deus não mais existe, então Ele foi incorporado pela noção de Pátria (curiosamente, palavra que tem a raiz pater que significa pai). Os valores cristãos cederam espaço aos valores republicanos; os símbolos religiosos foram proibidos em todas as esferas públicas e trocados pelos símbolos da República. Já no caso americano, fortemente protestante, a religião civil politizou o religioso e condicionou Deus a seus fins: o Estado republicano dos EUA se declarou divinamente protegido.

Assim, tanto EUA quanto a França e o restante do mundo promoveram espetáculos cheios de simbologia e emotividade: as escolas passaram a celebrar cerimônias com hasteamento da bandeira e canto do hino, além de produzir teatros relembrando os feitos dos proclamadores das repúblicas. Nascia, a partir de então, uma liturgia laica. Se a estratégia de cada Estado nacional não resultou na sacralização do próprio Estado, levou com certeza à sacralização de seus conceitos de Nação (o conjunto do povo) e Pátria (a terra deste povo). Tudo na religião foi substituído pela laicidade:
1. Deus pela Pátria;
2. O clero (liderança espiritual) pelo Estado representativo republicano;
3. Os símbolos sagrados pelos símbolos civis (flâmulas da igreja e da monarquia cederam lugar à bandeira nacional);
4. Hinos de louvor a Deus pelo Hino Nacional (que é louvor da Pátria e da Nação);
5. Os santos (ou exemplos de fé, no caso protestante) pelos heróis da Pátria (a lembrança de tais heróis não deixa de ser uma espécie de culto cívico dos mortos mais ou menos como celebrado na Roma Antiga).

Em todos os elementos acima listados permanece a característica altamente ritual – tal como são as liturgias religiosas. Claro que a força de cada um deles é variável em cada caso. Na França, os símbolos e o hino tiveram maior resultado, mas o panteão de heróis ficou prejudicado (principalmente depois de Napoleão). Nos EUA, Deus não foi substituído, mas ganhou a Pátria como consorte; já o seu culto dos mortos se tornou vasto: Washington, Franklin, Lincoln, etc.

Lincoln Memorial, em Washington D.C. A estrutura é a de um templo grego, onde está contida a gigantesca estátua de Lincoln sobre a qual está escrito: “In this temple as in the hearts of the people for whom he saved the union the memory of Abraham Lincoln is enshrined forever” (Neste templo, assim como no coração do povo para quem ele salvou a União, a memória de Abraham Lincoln está consagrada para sempre). É evidentemente uma estrutura religiosa – com um ídolo incluído! – acompanhada da explicação de que se trata de um templo mesmo.

Lincoln Memorial, em Washington D.C.
A estrutura é a de um templo grego, onde está contida a gigantesca estátua de Lincoln sobre a qual está escrito: “In this temple as in the hearts of the people for whom he saved the union the memory of Abraham Lincoln is enshrined forever” (Neste templo, assim como no coração do povo para quem ele salvou a União, a memória de Abraham Lincoln está consagrada para sempre). É evidentemente uma estrutura religiosa – com um ídolo incluído! – acompanhada da explicação de que se trata de um templo mesmo.

E o caso brasileiro?

Pelas terras tupiniquins, a simbologia republicana foi elaborada pelos positivistas. A figura feminina da República, tão valorizada na França, não pegou: dela restou apenas a cunhagem da nossa moeda de 1 real. Já a bandeira foi um sucesso: a expressão “Ordem e Progresso” (máxima positivista criada por Comte) é predominante no nosso lábaro estrelado. Mas o que mais explicita a característica religiosa do civismo brasileiro são outros dois elementos: Tiradentes e nosso Hino Nacional.

Note-se a sacralidade da pintura do Tiradentes Esquartejado de Pedro Américo (1893).

Note-se a sacralidade da pintura do Tiradentes Esquartejado de Pedro Américo (1893).

O exemplo de Tiradentes é assombroso. Este herói nacional da República teve a imagem completamente inventada. Nunca houve uma pintura ou descrição do rapaz; e justamente por isso é que foi mais fácil reinventar sua figura com as características imaginárias e populares de Cristo (cabelos e barbas compridas, vestes brancas, olhar resignado). Além disso, ele morreu pela Pátria sem reagir, mudo como uma ovelha que vai para o matadouro. Em 1842, Teófilo Otoni escreveu em uma poesia: “Do sangue de Tiradentes brotou-nos a salvação”. Este é um exemplo absurdamente explícito de sacralização do cívico. Mas nossos positivistas se superaram mesmo foi no Hino Nacional. Sabendo do que se tratava – dotar o civismo de fogo religioso –, o autor do nosso hino utilizou palavras como idolatrada, salve, imagem, adorada, amor, eterno, glória. Ele escancarou o que outros idealizadores tentaram esconder.

Não se trata aqui de criticar o caso brasileiro por utilizar jargões da fé. Não é apenas o Hino Brasileiro que é idólatra; ele somente explicita no conteúdo aquilo que está implícito em todos os hinos nacionais do mundo: a exaltação e louvor à própria noção de coletividade. Em última instância, é o louvor dos homens aos seus próprios feitos. E tanto os hinos quanto todos os outros símbolos cívicos tornam real e palpável aquilo que é apenas uma ideia, um conceito, uma potestade: os reinos dos homens.

Nada de novo: a relação entre Estado e idolatria aparece diversas vezes na Bíblia. Por exemplo: quando o povo de Israel pede um rei a Samuel, é Deus quem se diz ofendido: “E o Senhor lhe respondeu: Atenda a tudo o que o povo está lhe pedindo; não foi a você que rejeitaram; foi a mim que rejeitaram como rei” (1Sm 8.7). Mais interessante ainda ocorre logo depois, no mesmo contexto de criação do Estado israelita, quando o profeta compara o abandono de Deus com seguir ídolos: “E todo o povo disse a Samuel: Ore ao Senhor seu Deus em favor dos seus servos, para que não morramos, pois a todos os nossos pecados acrescentamos o mal de pedir um rei. Respondeu Samuel: Não tenham medo. De fato, vocês fizeram todo esse mal, mas não deixem de seguir o Senhor, antes, sirvam o Senhor de todo o coração. Não se desviem, para seguir ídolos inúteis, que não têm qualquer proveito nem podem livrá-los, pois são inúteis” (1 Sm 12.19-21). Não foi por acaso que, mais tarde, Nabucodonosor erigiu um ídolo (Dn 2), Dario exigiu ser adorado (Dn 6) e o mesmo repetiu-se ao longo da história com muitos outros imperadores dos mais diversos reinos dos homens. A associação entre Estado e idolatria é o padrão.

Diante disso, o que devo fazer? Nada muito complicado: sigo a orientação do apóstolo Pedro de que sou um peregrino nesta terra (1Pe 2.11) e a de Paulo de procurar a paz com todos (Rm 12.18). Obedeço, pago os impostos, sigo as leis, compareço às eleições, procuro ser o cidadão exemplar que os donos do poder querem. Também não vou queimar a bandeira nem ofender quem canta o hino. Mas não me peçam para acreditar nesta farsa chamada Pátria – seja francesa, americana ou brasileira – nem me convidem para participar do culto à sua instituição.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

Se você quiser saber mais a respeito do que os historiadores dizem sobre a religião civil, leia os excelentes livros:
– CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas. O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- CATROGA, Fernando. Nação, Mito e Rito. Religião civil e comemoracionismo. Fortaleza: NUDOC-UFC, 2005.

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11 junho
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Segundo o coração de Deus

Davi mostrando a cabeça de Golias, de Caravaggio (1605)

Não é sem razão que Davi figura como um dos mais famosos personagens da Bíblia: ele é uma das interessantes personalidades que nos foram deixadas pelo texto sagrado. Tão complexo em todas as suas facetas – menino pastor, músico, poeta, depois herói popular, comandante de exército, então guerrilheiro e finalmente rei – que alguns eruditos duvidam de sua existência histórica.

Entretanto, o que me chama a atenção na vida deste homem não são seus talentos, mas especialmente duas questões intrigantes. A primeira, é a sinceridade com que a Bíblia o descreve – com toda a podridão de seus pecados. A segunda questão é a expressão com que Deus o denomina: “um homem segundo o meu coração” (1Sm 13.14 e At 13.22). Interessante tal afirmação justamente diante da verdade sobre suas falhas. Que características há em Davi que o tornam um homem segundo o coração de Deus, ou seja, um homem como Deus quer que seja?

Me parece que podemos descartar a perfeição como o padrão exigido para agradar ao Senhor. Os textos são por demais enfáticos nos seus pecados para que o consideremos um exemplo de virtude. A maneira como Davi lidava com eles é que nos serve de exemplo; por isso, sempre é mencionado o caráter do arrependimento como o diferencial daquele homem. Mas penso que ainda há algo antes disso que dá a base para sua atitude humilde. Na teologia de Davi, Deus não trabalhava para ele; era Davi quem tentava descobrir a vontade do Senhor e praticá-la. Todas as suas atitudes revelavam sempre isso: uma profunda sujeição ao que Deus determinava, mesmo que fosse muito, mas muito ruim pra ele.

Vamos ver alguns exemplos:
1. Após o pecado de adultério com Bate-Seba, mentira, traição e assassinato de Urias, o bebê que ela concebera adoeceu. Davi clamou a Deus com intensidade emocionante, jejuando, chorando e orando sem parar. Não surtiu o efeito que o rei desejava: a criança morreu. Ao saber do desfecho, o monarca causou estranheza aos funcionários do palácio por sair do luto, tomar banho e se alimentar. Ele nada mais podia fazer; Deus determinara Sua decisão e ele a aceitara (2Sm 12).
2. Quando sofreu um golpe de estado da parte de seu filho Absalão, Davi fugiu de Jerusalém. Um homem lhe atirava pedras ao longo do caminho, mas Davi não permitiu que seus soldados o repreendessem, já que considerava a possibilidade de que Deus o tivesse mandado para humilhá-lo (2Sm 16).
3. Em outro episódio, após cair no pecado do orgulho, Davi ofereceu um sacrifício num terreno adjacente a Jerusalém, sobre o monte Moriá. O dono do terreno, um rico cananeu chamado Araúna, quis dar o local de graça. Davi rejeitou a proposta e decidiu pagar por tudo – tanto pelo terreno como pela madeira e o animal sacrificado. Na ocasião, o velho rei nos presenteou com um enunciado que revela seu caráter: “Não darei ao Senhor um sacrifício que não me custe nada” (2Sm 24.24). O que muitos considerariam uma “bênção”, para Davi era algo que não condizia com sua relação com Deus. Ser fiel a Deus sempre nos custa algo; sacrificar demanda alguma perda para nós.

Todas essas experiências muito humanas e até mesmo frustrantes de Davi nos revelam seu segredo. São marcas de como ele entendia a sua posição diante de Deus: Davi era o servo sem nenhum tipo de direito, e Deus era o Senhor absoluto. Quando pecava, confessava – e toda confissão é a admissão clara e irrestrita de quem se é, por mais sujo que pareça. Quando pedia algo, não determinava – servos não ordenam nada. Era segundo o coração de Deus porque seu arrependimento era baseado em saber exatamente quem ele era: homem, pecador, dependente da graça e misericórdia do soberano Deus.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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22 maio
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Dilma e os falsos profetas

dilma

Comecei a escrever essa crônica na semana anterior às eleições presidenciais de outubro de 2010 para retomar somente agora. Aquela foi uma das piores campanhas eleitorais que já vi. Imunda. O que me chateia não é a escolha nefasta a que sou obrigado a fazer em cada eleição, mas a quantidade de asneiras que recebo por e-mail no tempo de festa democrática.

Entre tantas besteiras, recebi uma profecia. Veja o que ela dizia a respeito da então candidata Dilma ao final de 2010: “(…) A presidente possui um câncer adormecido e dentro do ano do seu legado o diabo a ferirá e ela ficará terrivelmente doente, talvez, vindo até a falecer e, quem assumirá o poder? O vice Michel Temer… Fique ligado! A intensão (sic) do Diabo é dominar todo território brasileiro liberando potestades e principados no ar, terra e mar. É hora de nos levantarmos como filhos de Deus. Cuidado com o seu voto, não jogue nas mãos de um instrumento do nosso adversário.” Bem, esta profecia não se realizou. Ou seja, biblicamente falando, trata-se de uma falsa profecia porque nenhuma mentira vem da verdade (1Jo 2.21).

Isso me desanima. Me lembra um artigo escrito por Paul Freston na revista Ultimato de janeiro de 2011 a respeito justamente da eleição a que me refiro: “Infelizmente, períodos eleitorais são para muitos evangélicos como um Carnaval, uma época em que se pode falar qualquer coisa; um festival de argumentos interesseiros, radicalizações irresponsáveis e mentiras puras, pelas quais ninguém se sente responsável depois. É o equivalente evangélico de Las Vegas (“o que você faz e fala por lá, fica por lá”). Quão longe estamos do evangelho.”

Por isso, de um tempo pra cá passei a adotar uma posição mais radical em relação à boataria que nada mais é do que a aplicação prática da orientação dada no Deuteronômio: “Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. E, se disseres no teu coração: como conhecerei a palavra que o Senhor não falou? Quando o profeta falar em nome do Senhor, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é a palavra que o Senhor não falou; com soberba a falou aquele profeta. Não tenhas temor dele” (Dt 18.20-22).

Se qualquer cidadão enunciar algo a se concretizar no futuro e tal não se cumprir, eu o terei a partir de então como um falso profeta e não darei ouvidos a nada do que ele disser dali para diante. Mas tem um detalhe: incluo no mesmo critério qualquer um que repassar pelas mídias digitais esse tipo de bobagem, tornando-se um promotor da mentira e um veículo de divulgação dos falsos profetas.

Um pouco mais de responsabilidade, por favor.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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15 maio
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Sacerdócio corrompido

corrompido

É comum nos decepcionarmos quando descobrimos a podridão de alguns pastores, principalmente quando são pregadores famosos. É a tal de associação de ministros do Evangelho com mercantilização da fé, corrupção, deturpação das coisas de Deus, sem falar nos casos inacreditáveis de estupro e outras barbaridades horripilantes até mesmo aos olhos do mundo. E ficamos deprimidos com isso – não sem razão. Entretanto, se isso nos deixa tristes, por outro lado não deveria nos surpreender: é assunto manjado e bastante comum na história bíblica.

A relação entre o engano e o sacerdócio começou cedo: Arão, já determinado por Deus para ser o primeiro sumo sacerdote de Israel, descumpriu o segundo mandamento ao inventar um bezerro de ouro para atender as necessidades religiosas e supersticiosas do povo (Ex 32.1-4). Iniciava um belo legado.

Anos mais tarde, no período dos juízes, o sacerdócio estava completamente corrompido pelos filhos de Eli – ocasião em que eles desviavam as ofertas para lucro próprio (1Sm 2.12-17) e ainda traçavam as moças devotas que vinham cultuar (v. 22) –, o que gerou apenas a repreensão do velho sumo sacerdote (v. 23-25). Coube a Deus tomar uma atitude: o então jovem Samuel profetizou contra a família do seu tutor que foi eliminada pela mão dos filisteus. Problema resolvido para sempre? Não. Os filhos do próprio profeta Samuel – incontestável servo de Deus – também caíram na corrupção e aparentemente contaram com a vista grossa do pai (1Sm 8.1-3).

No tempo de Davi, o sacerdócio ficou em segundo plano e era orientado pela presença deste rei “segundo o coração de Deus”. Depois dele, a categoria sofreu diversas interferências dos monarcas judeus que ora trocavam o culto oficial para outra divindade, ora restauravam o culto levítico. Nos tempos finais do reino de Judá (pouco antes da invasão babilônica), o sacerdócio atingira graus insuportáveis de dominação política apoiada nas mentiras de falsos profetas, fato que o profeta Jeremias delatou num grito solitário (Jr 5.31). Não por acaso, Jeremias era membro da família sacerdotal desterrada por Salomão em Anatote.

Aí temos o pessoal que afirma que o exílio curou os judeus da idolatria e de todas as maldições da desobediência. O problema é que não. Depois do retorno à terra prometida, o sacerdócio voltou a desobedecer aos mandamentos de Deus tratando as coisas divinas com futilidade, como escreve indignado o último profeta do Antigo Testamento, Malaquias (Ml 1.6-9).

Finalmente, chegamos ao Novo Testamento. Será que o sacerdócio havia se regenerado? De novo: não. Os sacrifícios eram dirigidos pelos que os evangelhos chamam de saduceus. Sobre eles, a expectativa de Jesus não era nada boa – Ele orientou os discípulos a tomarem cuidado com seus ensinos (Mt 16.12). Depois, o Mestre causou furor aos donos do templo de Jerusalém ao expulsar os vendedores de mercadorias para os sacrifícios, o que afetava diretamente o lucro dos sacerdotes (Mc 11.15-18).

Queremos então acreditar que, com a pregação do Evangelho, o problema da corrupção dos pastores do rebanho – não mais um “sacerdócio intermediário”, mas um condutor – teria sido resolvido. Infelizmente, não é isso que acontece. Já no tempo do apóstolo Paulo havia diversos pregadores que falavam de Cristo por pura inveja e ambição (Fl 1.17) e outros entendiam que a piedade é fonte de lucro (1Tm 6.5). Sem falar nos falsos pastores que são simplesmente homens perversos infiltrados no rebanho que cuidam apenas de si mesmos, como atesta Judas (Jd 1.4,11-12).

Fica uma pergunta: por que isso acontece? Por que tantos pastores são corrompidos? Penso que a resposta está na proximidade com o poder. Nos sentimos inebriados pela autoridade sobre outras pessoas, e isso é natural ao homem. A política aparece dominada pela corrupção em todos os níveis justamente por isso. O mesmo acontece entre empresários de corporações grandes ou pequenas (quem você acha que são os corruptores dos políticos?) e em qualquer lugar em que se estabelecem relações de domínio. Talvez o Lorde Acton esteja correto ao afirmar que “o poder tende a corromper – e o poder absoluto corrompe absolutamente”. A liderança de uma igreja também tem uma base de poder que aumenta exponencialmente conforme o ministério ganha sucesso, principalmente se ganhar notoriedade midiática. A corrupção segue de perto a autoridade e, quando pode, tira o líder pra dançar.

Deixo, portanto, algumas constatações que podem nos ajudar a viver a fé nestes dias conturbados:
– a corrupção do sacerdócio é comum e eventualmente faz parte da realidade do povo de Deus (e isso aconteceu ao longo de toda a história);
– Deus julgará cada um de acordo com a verdade que há em seu coração.

Entretanto, fica uma boa notícia: se o pastor da sua igreja anda na presença deste poder sobre as pessoas e não se deixa corromper por ele, então você está diante de um verdadeiro homem de Deus – mesmo que ele não tenha grande sucesso público ou sua pregação não seja tão empolgante quanto você gostaria. Escute-o como um bom co-pastor de Cristo e siga a vida em paz.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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08 abril
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Amor hippie ou yuppie?

hippie e yuppieMuitas vezes os conceitos que a Bíblia nos apresenta são tão amplos e sobre-humanos que não conseguimos apreender todo o seu significado. Isso acontece, por exemplo, quando tentamos compreender os princípios de predestinação, soberania divina, livre arbítrio, responsabilidade humana, etc. Isso pra não mencionar as clássicas antinomias da Trindade e da natureza de Cristo. O que acontece, nestes casos, é a incapacidade lógica que temos de trabalhar princípios eternos por meio de uma mente limitada.

Claro que são casos extremos. Mas o mesmo acontece com outros conceitos não tão complexos que também são suficientemente amplos para gerar controvérsia. Por exemplo, a compreensão que temos do amor. Vou tomar como símbolo dessa divisão duas figuras históricas que se tornaram estereótipos de comportamento: os hippies (revolucionários que nada mudaram nos anos 60 e pregavam o amor livre, entre outras ideias) e os yuppies (reacionários dos anos 80 que perduram até hoje e tiveram na busca de sucesso profissional seu ideal de vida). Me parece que o princípio do amor, entre alguns cristãos, está dividido entre os que defendem um amor hippie e os adeptos do amor yuppie.

O amor hippie parte de um princípio que está correto: que Jesus veio chamar todos os que estão cansados e sobrecarregados (Mt 11.28); que Ele não está aqui para os justos, mas para os pecadores (Mt 5.32). Entretanto, o amor hippie termina por aí: chama os pecadores e esquece o objetivo: para o arrependimento. Porque o pregador deste amor não gosta muito de colocar as verdades inconvenientes sobre o pecado e a consequente separação que ele provoca entre nós e Deus. Assim, pula um ponto fundamental na transformação que o evangelho propõe: o reconhecimento da própria condição, o desejo de mudança e a busca do perdão.

Se o amor hippie se apodera da misericórdia de Deus para pregar a salvação a todo e qualquer excluído que seja – o que é maravilhoso –, esquece que a justificação em Cristo foi paga com um preço muito, mas muito alto: o próprio Filho de Deus sacrificado em meu lugar. E por causa do meu pecado. Por isso, a luta contra essa afronta a Deus faz parte da vida à qual fui chamado. Coisa que o descompromisso hippie tem dificuldades em aceitar.

O amor yuppie parte de uma definição que o restringe do outro lado. Como ele necessita da aprovação bíblica para uma conduta individualista, pautada na competitividade e no progresso econômico, então adota o legalismo como base teórica. A base é o princípio – correto, por sinal – de que amar é cumprir a lei (Rm 13.8-10). O risível na interpretação yuppie é seu caráter reducionista: parte do princípio que se você deixar de fazer exatamente essas coisas – adulterar, matar, furtar ou cobiçar – cumpriu a lei do amor. Acabam deixando de lado o que Oseias profetizou e Jesus reiterou pelo menos duas vezes: a misericórdia vale mais que o sacrifício (Mt 9.13).

Se o amor yuppie se abraça na primeira parte do texto de Mateus 19 – amar a Deus é não adulterar, não matar, não furtar e não cobiçar –, ignora o restante do texto – “vá e venda os seus bens, dê tudo aos pobres e siga-me”. Jesus não apenas nos falou do amor como uma atitude de não fazer algo a alguém, mas sim como uma iniciativa de ir em direção ao outro (Mt 7.12). O evangelho pede atitude de ir ao encontro com misericórdia e compaixão. Coisa que a competitividade yuppie tem dificuldades em tolerar.

Entendo o tempo extremista em que vivemos. Estamos saltando dentro duma dialética maniqueísta que nos coloca em pé de guerra e longe da profundidade da Palavra de Deus. Mas isso não justifica termos que escolher entre um amor hippie ou seu extremo oposto, um amor yuppie.

O amor hippie é aberto a a todos indistintamente e não pede transformação – venha como está e fique assim; o amor yuppie é baseado no legalismo – você no seu canto e eu no meu. O teólogo hippie elimina do seu vocabulário palavras como pecado, arrependimento, transformação; o teólogo yuppie deleta compaixão, misericórdia, caridade. Ambos pecam porque cortam partes fundamentais da amplitude bíblica que procuramos viver. Se o amor hippie arranca a cabeça do conceito – lhe tira a racionalidade da transformação –, o amor yuppie corta suas pernas – a capacidade de movimentação.

Ora, isso é restringir a Palavra de Deus às ideologias que nós desenvolvemos para torná-la mais, digamos assim, realizável. Eliminamos as inconveniências para nos sentir bem conosco e com nossas propostas econômico/sociais. Mas preciso discordar. Se o amor não pode ser definido como um amor hippie, também não pode ser restrito a um amor yuppie. Não dá pra reduzir o amor bíblico a definições irresponsáveis por conveniência social nem a definições legalistas por conveniência econômica.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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28 março
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Horrorosa cruz

cruz

Certa vez, um professor comentou em aula que a cruz era um símbolo muito feio e que lamentava que o cristianismo a tenha adotado em detrimento de um outro muito mais positivo e simpático – o peixe. “Peixe é alimento, vida; cruz é morte”, dizia ele. Hoje, penso o quanto ele estava certo e errado. Certo, porque a cruz é realmente um medonho símbolo de morte; errado, porque ela ter se tornado nosso principal elemento visual não é de se lamentar. A cruz é o centro, o coração pulsante da nossa fé.

No afã de sermos bacanas, muitas vezes rejeitamos o símbolo da cruz em benefício de outros mais amenos. Ao mesmo tempo, esquecemos que tudo o que aprendemos na Bíblia tem que passar, invariavelmente, pela cruz. A grande promessa da qual o Antigo Testamento nos fala e que o Novo nos mostra cumprida repousa sobre a cruz; o terrível Dia do Senhor caiu sobre a cruz; e por isso mesmo, o perdão de Deus repousa na mesma cruz. Nela é que Cristo, nosso cordeiro Pascal, foi sacrificado em nosso lugar (1Co 5.7). Aquele momento foi tão intenso, terrível e angustiante – quando Deus despejava a ira contra o pecado do mundo inteiro sobre seu Filho – que esse homem bradou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46). Foi inacreditavelmente severo. Jesus estava sozinho lá, e sabia disso.

A cruz também é a mais pura contradição: para o judeu, era e é um escândalo que o glorioso Messias seja o Servo Sofredor de Isaías 53; para os gentios, um absurdo inaceitável na qual um justo paga por um criminoso. Como escreveu Paulo, “os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Co 1.22-23). É isso mesmo: escândalo e loucura. Mas tirem a cruz da nossa fé e sobrará apenas uma religião igual a qualquer outra.

A cruz é tão central que o único ritual que Jesus nos deixou – a Santa Ceia – é a celebração e memória da Sua morte. “Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim” (Lc 22.19). Fazemos isto – ou deveríamos fazer – todas as vezes que nos reunimos como igreja: lembrar o que Cristo fez. É o único motivo para nos reunirmos. Fora disso, somos clube mesmo. Por estas razões é que co-memoramos (isto é, co-celebramos, lembramos juntos) neste feriado de Sexta-Feira Santa e Páscoa a imensidão da obra que foi feita por Deus.

Por isso tudo, não precisamos e não devemos tentar maquiar o que aconteceu: encontramos a salvação naquele dia terrível. Sim, naquela cruz horrorosa. Mas somente passando por ela é que encontraremos a bela e serena manhã da ressurreição.

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18 março
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Crentes são neuróticos

Presentes de Natal

Alguns anos atrás desenvolvi um projeto de capa de cd para música infantil cristã. Como o assunto girava em torno da Arca de Noé, fiz uma ilustração de um arco-íris como uma pauta musical. Acho que ficou legal, e o compositor também gostou. Entretanto, mostrando para outras pessoas, chegamos à conclusão que era melhor tirar o arco-íris porque a crentaiada ia associar o produto ao movimento New Age e achar que era coisa do diabo. Foi quando ele saiu com esta frase: “os crentes são neuróticos”.

Pior que é a mais pura verdade. Me impressiona a quantidade de teorias conspiratórias que se formam em torno de questões inócuas. Todo final de ano me deparo com uma delas: os símbolos natalinos. Você já deve ter ouvido a história: o pinheiro remete ao carvalho de Odin, a guirlanda é símbolo grego da eternidade, e o dia 25 de dezembro (escolhido no século IV para a celebração) era a comemoração do Natalis Solis Invicti – uma festa romana do sol. Portanto, tudo o que usamos como símbolos para celebrar o nascimento de Cristo tem origem pagã. Instaurou-se a neurose: quem monta um pinheiro em casa é idólatra.

Bom, temos que organizar algumas ideias.

Em primeiro lugar, precisamos sempre nos recordar de que os objetos não possuem poder em si; não possuem energias negativas que se espalham ao serem tocados. Micróbio não é demônio e você não terá sete anos de azar se quebrar um espelho. Como Jesus afirmou, o que contamina o homem não é o que entra na sua boca, mas o que sai (Mt 15.11). Paulo reitera essa assertiva orientando que cada crente deve comprar no mercado sem questionar a procedência por questões religiosas (1Co 10) – e olha que ele estava falando de comprar carnes de animais que foram sacrificados aos deuses pagãos. Assim, preciso concluir que um pinheirinho ou uma guirlanda dentro de casa não emanarão paganismo assim como o ambiente da sala não ficará impregnado de amor se eu deixar a Bíblia aberta em 1Coríntios 13.

Em segundo lugar, os símbolos se ressignificam ao longo do tempo e o seu valor ou perigo devem ser medidos pelas associações feitas na geração presente. Boa parte dos neuróticos de plantão que são contrários ao símbolos natalinos não vêem problemas em ostentar a estrela de Davi, um amuleto de proteção criado pelo judaísmo medieval. Me parece que tanto a estrela de Davi quanto os símbolos natalinos trazem sentimentos positivos para a nossa geração e não há porque atacá-los por um zelo material da fé. (No final das contas, tanta controvérsia em assuntos como esse me levam a conclusão de que os crentes são, além de neuróticos, muito supersticiosos. Acreditam na força dos amuletos e no poder místico dos símbolos – o que pode ajudar a explicar o sucesso de determinados grupos neopentecostais.)

É nesse ponto que chego à conclusão dessa reflexão. Me parece que o objetivo do inimigo em plantar tais neuroses é estratégica: ele pretende nos distrair do verdadeiro mal, muito mais sutil e perigoso – no caso do Natal, a mercantilização da celebração da fé. Quando se fala em “espírito do Natal” e ele se restringe a uma generosidade que leva em última instância a comprar e trocar presentes num furor de base comercial – deixando de lado a memória do milagre da encarnação do Logos –, o intento maligno foi alcançado.

O grande mal feito pelo mundo contemporâneo ao Natal não foi o pinheiro, o presépio ou a data tomada emprestada do culto do sol: foi a transformação do advento do Deus Conosco em uma festa do consumo. Não tanto o que colocamos ou deixamos de colocar como enfeite nas nossas casas. Acabamos errando o foco da nossa neurose.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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12 março
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Travessia

Rio Araguaia

Crentes sinceros se deparam com diversos dilemas ao longo da vida. Um deles acontece no que tange ao contato com a cultura secular. Alguns defendem que devemos criar uma redoma de proteção à nossa fé lendo apenas os autores mais ortodoxos e ouvindo somente os que fazem parte do nosso próprio meio. Vale para literatura, música, artes, etc. Acontece então do crente só ouvir música de crente ou só ler livros cristãos. Mas isso não é exclusivo nosso: conheço historiador que só lê historiadores, marxista que só lê marxistas, liberal que só lê liberais.

Outro grupo de cristãos igualmente sinceros parte sempre da pergunta “qual a confissão dele?” antes de considerar um argumento. Assim, observam teólogos de outras correntes sob uma severa crítica pré-determinada, provavelmente temendo cair na fé ou perder a ortodoxia, considerando melhor não ir muito fundo na compreensão de outro pensamento.

Em ambos os casos fica uma proteção à fé aconselhável aos neófitos (novos na comunhão), mas que, reproduzido a todo o conjunto da igreja e de modo permanente, pode nos colocar num isolamento pra lá de improdutivo. Deixamos de crescer e amadurecer pela absoluta falta de contato com a efervescência do outro lado do rio.

Não me parece ter sido a postura dos antigos, para citar alguns exemplos bíblicos. Salomão não teve maiores problemas em acrescentar aos seus próprios pensamentos os ditos de sábios de outros povos, como nos atestam Provérbios 30.1 e 31.1. Paulo, apesar de apresentar-se com um erudito do judaísmo (At 22.3), cita o filósofo cretense Epimênides (VI a.C.) em Tito 1.12 e Arato da Cicília (III a.C.) em Atos 17.28. João, por sua vez, vivendo em meio à cultura grega da Ásia Menor, não deixou de tomar o princípio estóico do Logos (Jo 1.1) para iniciar a explicação de Cristo à sua plateia. Ao agir assim, nenhum deles abandonou a fé revelada, nem permitiu concessões àquilo que Deus lhes falara; mas não deixaram de encontrar em outros pagos referências importantes para construir pontes de compreensão não só do outro e para o outro, mas da própria fé.

Isso significa se atirar em todo vento de doutrina? Não. Significa que ter uma visão crítica ao ler determinado texto ou ouvir qualquer música é uma postura recomendável, mas que deve se estender a todos – inclusive àqueles com cujas ideias simpatizamos.

É por isso que, penso, podemos – e precisamos! – ter os olhos abertos para fora das nossas fronteiras: porque lá também encontramos preciosidades que jamais perceberíamos no abrigo da própria pátria. O contato com pensamentos diversos permite o olhar diferenciado também sobre a Palavra, encontrando nela mensagens que passavam desapercebidas pela leitura corriqueira e viciada. A redoma é gostosa, segura. Mas limita nossa percepção e crescimento na fé.

É por isso que me emociono com a letra abaixo, cancioneiro popular de uma dupla sertaneja. Simples, pueril, expressão de uma realidade que não é a minha, mas presente em uma parte muito específica da população brasileira. Leia e entenda a razão. Também vale também como um exercício para aqueles que não aceitam abrir a guarda inclusive para outros estilos musicais.

 

Travessia do Araguaia
Dino Franco – Décio dos Santos
(você pode acompanhar a leitura ouvindo a música no Youtube)

Naquele estradão deserto, uma boiada descia
Pras bandas do Araguaia pra fazer a travessia
O capataz era um velho de muita sabedoria
As ordens eram severas e a peonada obedecia

O ponteiro, moço novo muito desembaraçado
Mas era a primeira viagem que fazia nesses lados
Não conhecia os tormentos do Araguaia afamado
Não sabia que as piranhas era um perigo danado

Ao chegarem na barranca disse o velho boiadeiro
Derrubamos um boi n’água – deu a ordem ao ponteiro
Enquanto as piranhas comem, temos que passar ligeiro
Toque logo este boi velho que vale pouco dinheiro

Era um boi de aspa grande, já roído pelos anos
O coitado não sabia do seu destino tirano
Sangrando por ferroadas, no Araguaia foi entrando
As piranhas vieram loucas e o boi foram devorando

Enquanto o pobre boi velho ia sendo devorado
A boiada foi nadando e saiu do outro lado
Naquelas verdes pastagens tudo estava sossegado
Disse o velho ao ponteiro: pode ficar descansado

O ponteiro, revoltado, disse: que barbaridade
Sacrificar um boi velho, pra que esta crueldade?
Respondeu o boiadeiro: aprenda esta verdade
Que Jesus também morreu pra salvar a humanidade

 

Ás vezes precisamos fazer algumas travessias para encontrar novidade. Ar fresco para a nossa redoma.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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05 março
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Eu mesmo

eu mesmo

Outro dia, na Escola Dominical, havíamos entrado em uma discussão sobre o comportamento na igreja e fora dela. Acabei comentando que lá fora é que talvez sejamos nós mesmos. Sabe como é, dentro da igreja temos um comportamento mais regrado, vamos dizer assim. Interessante que uma senhora muito querida retrucou dizendo que ela era “boa” e “melhor” na igreja, razão pela qual ela conseguia “ser ela mesma” mais na igreja do que fora dela.

Claro que discordo disso porque a realidade sobre mim mesmo não é nada bonita – costumo me defrontar com alguma perversidade que brota não sei de onde (na verdade, eu sei: é do meu interior). Mas achei muito interessante esse desejo dela de encontrar na bondade a verdade sobre si mesma – o que também quero, obviamente. Mas isso não elimina o problema teológico na base desse pensamento: que no fundo nós somos bons, e apenas não conseguimos sê-lo de vez em quando ou em determinados lugares. O problema é que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Não, não somos bons.

Fiquei pensando sobre a questão. Mais do que um posicionamento teológico, me parece que essa percepção revela um conflito que todos nós vivemos: uma sensação de falsidade no comportamento na igreja frente ao que precisamos viver no dia-a-dia. Nesse sentido, me pergunto: é mascarado quem se apresenta em santidade no culto e não consegue fazer isso com tanto empenho no cotidiano? Somos autênticos (seja como “bom”, seja como “mau”) em todos os momentos da nossa vida?

Penso que a coisa não é tão simples. Na prática, vivemos o que o teólogo George Eldon Ladd chama de tensão entre o já e o ainda não: vivemos a experiência do Espírito Santo que já habita em nós, implantando subversivamente o Reino de Deus – já presente mas ainda não concluído na história. Neste sentido, a consumação deste Reino já iniciado acontecerá somente no retorno de Cristo. Daí que vivemos em uma situação ambivalente, vivendo a prática de um Reino que virá, mas inseridos num mundo ainda não transformado. Por isso, a insistência dos apóstolos de que somos forasteiros e peregrinos neste mundo (1Pe 1.1, 2.11).

Mas Paulo nos revela que o problema é maior ainda: essa tensão vai além da prática cotidiana em oposição à eclesiástica, agindo principalmente no nosso íntimo: “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros” (Rm 7.18-23).

A tensão do já-ainda não está presente na relação igreja-sociedade, mas também dentro de nós. Por isso, é possível que o seja vivido parcialmente na comunhão e em alguns momentos do nosso dia-a-dia (quando nos sentimos melhores); e o ainda não nos esbofeteia com mais intensidade na vivência das dificuldades do cotidiano (quando nos sentimos piores). Me parece que em nenhum dos momentos deixamos de ser nós mesmos – ou seja, autênticos: apenas estamos num processo de construção com vitórias e derrotas que só vai terminar quando adentrarmos na eternidade. Aí sim: transformado por Deus, eu mesmo serei o melhor que posso ser.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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08 fevereiro
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Deus dos fracassados

Pedro nega a Cristo

Uma das coisas que mais me admiram na Bíblia é sua mordaz sinceridade. Não há subterfúgios: os que denominamos “heróis” são apresentados com sua ousadia em crer, mas sem omitir a podridão de seus pecados. Não há espaço na Palavra para a idealização de um super-humano. E esta é a principal razão pela qual creio na Bíblia: não porque ela descreve o sucesso daqueles que nos inspiram, mas principalmente porque não hesita em mostrar seus fracassos.

A Bíblia é de uma sinceridade constrangedora. Veja o que Jesus mesmo diz: “a cada dia basta seu próprio mal” (Mt 6.34). Quem de nós consola com tais palavras? Muitas vezes, as coisas darão errado – mesmo que você seja um bom servo. Virão momentos de fracasso. Qual a boa notícia nisso? É que na experiência humana com Deus não há espaço para os orgulhosos fanfarrões; já os fracassados, estes são a matéria-prima preferida de nosso Senhor.

Há um personagem que aparece no livro de Atos, surpreendentemente mencionado em um retumbante fracasso: trata-se de João Marcos. Sobrinho de Barnabé, ele abandonara o tio e Paulo na primeira viagem missionária, logo no início da jornada (At 13.13). Quando os dois apóstolos partiram para a segunda missão, ele sofreu severa rejeição de Paulo, chegando ao ponto deste não seguir viagem com Barnabé, tamanha a desavença (At 15.37-39). O que teria se passado na cabeça do rapaz?

A partir daqui vamos imaginar, vamos buscar na ficção as possibilidades do que possa ter acontecido, porque não temos registro histórico ou bíblico detalhado dos fatos. O que sabemos, por informação dos pais da igreja (Inácio e Irineu) é que João Marcos foi discípulo e secretário do apóstolo Pedro. Fico pensando: o que o jovem discípulo conversava com um homem que era uma lenda viva, reconhecido pela igreja primitiva como “a Rocha”?
Vamos criar um cenário: certa noite, Pedro menciona que encontrarão Paulo na semana seguinte. O guri estremece por dentro, e o apóstolo – macaco velho que era –, percebe: “O que aconteceu com vocês?”. João Marcos então conta a história: “Abandonei Paulo e meu tio quando a coisa começou a esquentar e, na hora de mostrar do que eu era feito, fugi”.

Sim, Pedro sabia o que o rapaz sentia. Podemos imaginar ele dizendo a João Marcos: “Deixe-me contar algo sobre abandonar alguém”. E então o maior dos apóstolos começa a narrar o que aconteceu naquela noite de quinta-feira, quando estava escondido no pátio da casa onde Cristo era inquirido (talvez a uns 20 metros de distância do Mestre): negou conhecer o Senhor três vezes – na cara dele. Foi só na terceira vez, quando um galo cantou no lusco-fusco da manhã, que Jesus o mirou com aqueles olhos tão tristes e solitários, e ele caiu em si (Lc 22.61). Há maior derrota do que essa?

É aqui que aprendemos o que Cristo faz com aqueles que fracassam com ele. Alguns dias depois de sua ressurreição, Jesus foi ao encontro de Pedro no mar da Galileia (Jo 21). Lá, à beira do mar, no amanhecer e ao lado de uma fogueira (veja como ele recria o cenário da negação!), consolou a alma de Pedro permitindo que ele afirmasse por três vezes, diante de todos os companheiros, que o amava. Naquele momento, Pedro não sabia o tamanho da graça e da chance que Deus ainda lhe daria: segundo Clemente de Roma, Pedro foi martirizado em Roma, crucificado por Nero. Imagino a coroa de glória que representou para o apóstolo tal fato: que o Senhor lhe tenha dado novamente a chance de mostrar que realmente morreria por Ele.

Voltemos a João Marcos. O que ele aprendeu com o maior dos fracassados? Muito. Primeiramente, a partir das memórias do apóstolo, ele escreveu o primeiro evangelho de que temos notícia, o segundo que está no nosso cânon – o Evangelho de Marcos. Aquele jovem fracassado simplesmente tornou-se escritor da própria Palavra de Deus. E nas novas chances que Deus foi lhe abrindo, encontrou ainda reconhecimento daquele que certamente temia mais que qualquer outro: o severo apóstolo Paulo. Este, também às portas do martírio, escrevera ao discípulo Timóteo o seguinte: “traze também contigo Marcos, porque ele me é útil para o ministério” (2Tm 4.11).

Com a experiência destes dois homens de Deus – o apóstolo Pedro e seu amigo-discípulo de tantos anos, João Marcos – entendemos como Deus não deixa de completar Sua obra por causa dos nossos fracassos; pelo contrário, Ele os usa para o Seu Reino. Então, quero deixar o seguinte para você: quando você fracassar – e não estou dizendo se, mas quando –, lembre-se de três coisas:
1. a tua derrota não impedirá o Reino de Deus;
2. o reconhecimento da nossa fraqueza é a base indispensável para qualquer ação divina;
3. e nosso Deus é o Deus resgatador dos fracassados e das múltiplas segundas chances.

Vá e viva a alegria de trabalhar na obra desse misericordioso e amoroso Deus.

Crônica de André Daniel Reinke
Palavra dada aos alunos formandos do Instituto Bereia (Porto Alegre) em 14.12.2012

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07 fevereiro
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Coisas deste mundo

Máscara do carnaval de Veneza

É muito comum se ouvir falar nas igrejas a respeito do cuidado que se deve ter com as “coisas deste mundo”. Esse é um conselho bíblico bastante oportuno (veja 1Jo 2.15-17). O problema é a delimitação simplória que muitos adotam para o que seriam estas coisas do mundo. Geralmente acabam sendo entendidas como elementos comportamentais (principalmente imoralidade sexual) ou culturais (estilo musical, vestuário, etc). Curiosamente, questões relacionadas aos jovens. Mas será que é disso que se trata? Acho que não. Na verdade, as coisas do mundo que atualmente ganham força estão relacionadas com a competitividade e a prosperidade.

O texto bíblico de 1João menciona três tipos de coisas do mundo que nós não devemos amar nem desejar:
– a concupiscência da carne;
– a concupiscência dos olhos;
– o orgulho da riqueza.

A concupiscência da carne relaciona-se à luxúria, ou seja, ao primeiro e grande motivo que move o homem: a sensualidade desenfreada. Até aí, tudo tranquilo. Não lembro de igreja séria que defenda a libertinagem sexual. Entretanto, com os outros dois tipos, o jogo é diferente.

A concupiscência dos olhos é simplesmente a sedução da aparência. O que é típico do mundo moderno é a competitividade, ou seja, a necessidade permanente de ser ou pelo menos parecer maior e melhor que o outro – ditadura do capitalismo que impôs a nós não somente um sistema econômico, mas um estilo de vida. Essa é uma das coisas do mundo que penetrou profundamente na igreja evangélica e que a intoxica irremediavelmente. Até ontem bastavam os títulos de pastor, ou reverendo; hoje, alguns nomeiam a si mesmos bispos (para demonstrar que estão hierarquicamente acima dos outros) ou até mesmo apóstolos (para que todos entendam exatamente quem é que manda no pedaço ou que está mais próximo de Deus). Aos líderes inflados seguem-se os plebeus, que procuram novas-antigas definições como levitas, profetas, mensageiros, ministros, etc. Cada um buscando seus quinze minutos de fama ou seu espaço nos holofotes sacros. A concupiscência dos olhos tem a ver com a cobiça (que entra pelos olhos) dos bens e do ministério dos outros. E aí me pergunto: para onde foi a tal da humildade? Onde os servos, os lavadores de pés?

O orgulho da riqueza, então, tomou conta não somente dos anseios de muitos crentes, como predomina em diversos púlpitos – muitos deles, televisivos. O orgulho da riqueza está associado a outro elemento fundamental do tempo contemporâneo, a busca do lucro. Que, na igreja evangélica, tomou a forma assombrosa da “doutrina” da prosperidade. Parece não haver esforço espiritual que não deva resultar em sucesso, num carro novo, apartamento ou uma carreira bem-sucedida. Testemunhar de Deus agora é ostentar a riqueza adquirida – quer dizer, a bênção. Mostrar ao irmão o quão próximo de Deus está contando os bens materiais que Ele deu, enquanto o outro padece de falta de fé e recursos para viver dignamente. Pergunto novamente: para onde foram os “que adoram em espírito e em verdade”? Que lugar os bem-aventurados do Sermão do Monte teriam nessa igreja?

Temo que estas coisas do mundo – a competitividade e a busca da prosperidade – vieram pra ficar na igreja evangélica contemporânea. Não vejo esperança porque a igreja definiu-se pela estratégia mercadológica da necessidade absoluta do resultado, ou seja, crescimento a qualquer custo. Compreendo as motivações: se esta igreja abandonar sua pregação mundana, talvez perca junto com ela a maior parte de seus fiéis.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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06 fevereiro
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Ceifando o que não plantou

trigo

(Palavra aos alunos formandos do Instituto Bereia em dezembro de 2011)

Fiquei feliz com a escolha que vocês fizeram, naturalmente. Vejo um bom sinal quando, num curso de música, os alunos escolhem como paraninfo um professor de Bíblia. Não por mim, mas pelo significado disso.

Gostaria de te deixar uma palavra difícil – na verdade, nada diferente do que foi feito em nossos 60 encontros ao longo desse curso. De tudo o que conversamos, o essencial é que você entenda a humildade. Troco o que você possa ter aprendido por esse simples princípio. Por quê? Porque sem ela ninguém verá o Reino de Deus. Por isso o salmista diz: “Preserva também o teu servo do orgulho, para que ele nunca me domine; então eu serei íntegro e inocente de uma grande transgressão” (Sl 19.14).

Você, por trabalhar nos palcos e sob os holofotes, é o mais visado pelo pecado do orgulho. A maioria já caiu e nem sequer percebeu isso. Então, gostaria de te ajudar na empreitada da humildade. Muita gente explica que ser um canal de bênçãos ocorre da seguinte forma: Deus age em você e algo acontece. Realmente é isso, mas não é somente isso. Há uma complexidade por trás da ação de Deus que não nos é perceptível. Vou tentar exemplificar lembrando do contexto do Novo Testamento no que diz respeito aos judeus e aos samaritanos.

Havia uma discussão entre eles sobre qual seria o local correto de adorar a Deus: em Siquém (no monte Gerizim) ou em Jerusalém. Os samaritanos defendiam Siquém porque era o berço dos patriarcas: Abraão e Jacó construíram altares para adorar naquele local (Gn 12.6-7; 33.18-20). Também ali foi feita a reunião após a conquista de Canaã, quando o povo se dividiu sobre os montes Ebal e Gerizim para ler as bênçãos e maldições descritas em Deuteronômio, erigindo depois um monumento com os 10 mandamentos gravados (Js 8.30-35). Siquém estava profundamente ligada aos patriarcas e à origem da nação israelita. Jerusalém, por sua vez, foi a cidade conquistada por Davi e tornada a capital e centro do culto oficial, alvo de inúmeras promessas de Deus.

Jesus encontrou justamente essa controvérsia quando viajava de Jerusalém para a Galileia, passando por Samaria. Sentou-se na beira de um poço que Jacó construíra, ao lado da vila de Sicar – a Siquém dos tempos de Abraão. Ali conversava com uma interessante mulher samaritana que lhe fez a pergunta catalisadora de tanto debate: “Onde é o lugar correto para adorar? Neste monte ou em Jerusalém?”. No fundo, a questão era: quem é maior, Abraão ou Davi? Ela invocou 1900 anos de história e uma discussão teológica de 7 séculos. A resposta do Senhor foi simples: nem aqui, nem lá. “Acredita-me, mulher, que nem nesta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.21,23). Não haveria mais necessidade de estruturas, de locais, de representantes entre homens e o Pai: cada um seria um templo. A mulher ficou obviamente estupefata: seria ele o Messias prometido? Ela foi correndo chamar os moradores para contar a novidade. Minutos depois, voltava com seus amigos.

Imagine a cena: os samaritanos saindo em multidão da vila e vindo ao encontro de Jesus, todos eles vestindo suas tradicionais roupas brancas, enchendo o vale de uma constelação de pontos claros. Foi quando o Mestre virou e disse para seus discípulos: “Não dizeis vós: ainda quatro meses e chegará a colheita? Pois eu vos digo: erguei vossos olhos e vede os campos: estão brancos para a colheita! (…) Aqui, pois, que se verifica o provérbio: um é o que semeia, outro o que ceifa. Eu vos enviei a ceifar onde não trabalhastes; outros trabalharam e vós entrastes no trabalho deles” (Jo 4.35,38). Havia milênios de ação de Deus naquele lugar, desde os patriarcas. Jesus sabia disso. Estava somente colhendo: sua atividade não iniciara apenas naquele momento, mas muito antes.

Agora vamos a você. Digamos que esteja dirigindo um culto ou um momento de louvor e alguém encontra Cristo. É maravilhoso – e você participou disso. Mas não tenha a ousadia de outorgar a si mesmo a autoria da maravilha. Deus trabalhou durante a vida inteira daquela pessoa de maneiras as quais você jamais poderá sequer imaginar. As pessoas que eventualmente forem tocadas o terão sido não porque houve uma unção especial em você: houve um milhão de pequenas coisinhas que agiram naquelas vidas, e nenhuma delas terá sido a responsável única pelo que aconteceu.

Você é apenas parte do processo e provavelmente nunca saberá se está plantando ou se está colhendo. Não cabe a você decidir. Portanto, seja humilde. Todo crescimento não é seu, é de Deus. O ministério não é seu, é de Deus. Cada gesto – mínimo que seja – não é obra sua: é Deus agindo por meio de você. Você é uma parcela de sal e fermento misturado à massa.

Isso é o Reino de Deus.
Entenda isso e você estará apto a participar dele.


Crônica de André Daniel Reinke

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05 fevereiro
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Imperdoáveis

imperdoaveis

Na coluna A outra face mencionei aquela que acredito ser a proposta mais absurda de Jesus: dar a outra face ao agressor. A segunda proposta mais absurda, na minha opinião, é o perdão. Na verdade, o perdão é irmão íntimo de dar a outra face; a diferença é que ele não é fruto de uma relação exclusiva com “inimigos”. O perdão, quando o ofendido assume o prejuízo causado pelo ofensor, é o único caminho da restauração plena. Tratando do tema de perdão, sempre me lembro de dois filmes que me marcaram e que demonstram modos opostos de lidar com os pecados dos outros e seus efeitos sobre nós. Trata-se de “Os Imperdoáveis” (onde ninguém perdoa ninguém) e “Forrest Gump” (o cara que perdoa todos o tempo inteiro).

Os Imperdoáveis foi o filme vencedor do Oscar de 1992, escrito e dirigido por Clint Eastwood, estrelado por ele mesmo mais Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris (elenco sensacional, vamos combinar). O filme é maravilhoso, como tudo o que o Clintão produz. O título já demonstra uma profunda relação de culpa que permeia toda a história: as prostitutas agredidas não perdoam seus agressores; o xerife não perdoa quem se atravessa no seu caminho; o próprio personagem de Clint não perdoa a si mesmo pelo seu passado de assassino, embora tenha se redimido – o que o leva de volta à matança. O filme inteiro é profundamente deprimente exatamente por isso: não há saída se não houver perdão; e ele jamais acontece.

Forrest Gump, o contador de histórias venceu o Oscar de 1995; foi dirigido por Robert Zemeckis e estrelado por Tom Hanks (a melhor interpretação da vida dele, na minha opinião). A personagem é um retardado mental que é constantemente enganado por todo mundo, a quem ele sempre responde com um voto de confiança. As situações são hilárias e inverossímeis (como ele ser campeão mundial de tênis de mesa, herói da guerra do Vietnam, maior produtor de camarão do mundo), mas ao mesmo tempo ele nos soa profundamente humano e real. Seu desapego das coisas e apego às pessoas nos leva às lágrimas, como quando perdoa o capitão que sempre o tripudiou (e ainda o ajuda a recuperar-se), recebe a moça que o abandonou, ignora cada ofensa que a sociedade inteira lhe faz. Perdoa sempre. Ficamos com a sensação de que somente um retardado mental poderia amar e perdoar daquela maneira. O que infelizmente parece ser verdade na maioria das vezes.

Minha sugestão é de que você reveja estes filmes pensando na proposta de Jesus em perdoar. São dois filmes muito bons apresentando as maneiras opostas como as pessoas lidam com a questão. Quando ninguém desculpa ninguém, todos são imperdoáveis. Já o cara que perdoa todos o tempo inteiro é inocentemente feliz.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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04 fevereiro
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Zelo com entendimento

codigo

O código de barras foi criado cerca de 20 anos atrás para controle de estoques no comércio. Lembro-me que houve um frenesi evangélico classificando-o como a marca da besta. Afinal, sem esta “marca” ninguém poderia comprar ou vender (como a afirmação bíblica em Ap 13.17), além dele conter três duplas de barras sem números (que, segundo uma estranha interpretação, representariam 666, o próprio número da besta). Desculpem a franqueza, mas foi uma grande bobagem: o código de barras é uma representação gráfica de números e aqueles três avanços vazios são separadores que representam nada. Conheço empresas cristãs que iriam à falência porque estavam prestes a se recusar a utilizar o código de barras naquela época. Ou seja: nota máxima em zelo, nota mínima em entendimento.

No Antigo Testamento ocorreu um fato no qual um grande zelo quase resultou em tragédia por causa da falta de entendimento. Você pode conferir este evendo em Josué 22. Resumo da ópera: as tribos de Rúben, Gade e metade de Manassés receberam sua porção da Terra Prometida do outro lado do rio Jordão. Essas tribos construíram uma cópia do altar que havia junto ao Tabernáculo (que estava em Siló, na porção ocidental de Israel). Ora, a lei proibia a existência de outro local de sacrifícios que não o Tabernáculo. Levantou-se o zelo do restante de Israel que pegou em armas e partiu para exterminar seus irmãos desviados. Já formados para a batalha, enviaram mensageiros para conversar com os faltosos, recebendo a explicação do que realmente acontecera: as três tribos não haviam construído um altar para sacrifício, mas um monumento para memória de seus descendentes. Queriam apenas garantir que seriam lembrados como parte do povo de Israel, apesar de estarem do outro lado do rio.

A explicação trouxe o entendimento necessário ao zelo de Israel, e a tragédia foi evitada. Ou seja, a extrema preocupação com a exatidão dos mandamentos poderia ter produzido uma tremenda injustiça porque efetivada sem o devido conhecimento dos fatos que se apresentavam.

O que me impressiona é que não estamos longe do procedimento daqueles israelitas. Cada pouco aparece um iluminado a nos revelar os sinais malignos ocultos no mundo, ao qual muitos seguem sem verificar a veracidade das afirmações (nestes tempos de internet, então, as teorias conspiratórias se proliferam). O código de barras foi um caso que revelou o quão desinformados nós somos. Alguns anos atrás o senador Pedro Simon (PMDB-RS) propôs a unificação de todos os números (RG, CPF etc) em uma única carteira. A coisa mais prática que se poderia imaginar – mas lá estavam os neuróticos de plantão percebendo a manifestação do Anticristo (evidentemente a proposta do senador emperrou na máquina burocrática brasileira…).

Aí fico me perguntando: o que tem a ver a marca da besta com a tecnologia? Não tenho dúvidas que um sinal do Anticristo – mesmo que baseado em tecnologia – deve estar ideologicamente vinculado como uma confissão de fé, o que não acontece com o tal do código de barras. Para mim, todas estas leituras catastróficas do desenvolvimento tecnológico não estão produzindo um povo vigilante: estão produzindo um povo neurótico e alarmista. Não um povo zeloso, mas ignorante. E isto é muito ruim, porque o zelo puro pode produzir intolerância. Mas o zelo com entendimento nos leva a agir com sabedoria.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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01 fevereiro
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Analfabetismo funcional?

Analfabetismo

Algum tempo atrás recebi muitos emails indignados a respeito da Globo e de sua suposta campanha contra as instituições mais sagradas, como a família, por exemplo. Não tenho dúvidas dos valores deturpados que a empresa tem defendido e de sua ação perniciosa para toda a sociedade brasileira em boa parte de sua programação estúpida. Mas a mesma crítica se estendia – com ferocidade impressionante nos emails que vi – à música de abertura de uma novela. Eu não tinha prestado atenção antes, mas aí resolvi ler a dita letra com calma. E fiquei assustado – não com o conteúdo, mas com o tamanho do equívoco do povo na leitura de um texto. Para que todos saibam do que estamos falando, segue a letra “Pelo Avesso”:

Pelo Avesso – Titãs
Composição: Sérgio Britto

Vamos deixar que entrem?
Que invadam o seu lar?
Pedir que quebrem
Que acabem com seu bem-estar?
Vamos pedir que quebrem
O que eu construí pra mim?
Que joguem lixo
Que destruam o meu jardim?

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão – a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação – a falta de futuro

Vamos deixar que entrem?
Que invadam o meu quintal?
Que sujem a casa?
E rasguem as roupas no varal?
Vamos pedir que quebrem
Sua sala de jantar
Que quebrem os móveis
E queimem tudo o que restar?

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão – a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação – a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão – a falta de futuro
O mesmo desespero

Vamos deixar que entrem
Como uma interrogação?
Até os inocentes
Aqui já não tem perdão
Vamos pedir que quebrem?
Destruir qualquer certeza
Até o que é mesmo belo
Aqui já não tem beleza

Vamos deixar que entrem?
E fiquem com o que você tem?
Até o que é de todos
Já não é de ninguém
Pedir que quebrem?
Mendigar pelas esquinas
Até o que é novo
Já está em ruínas

Vamos deixar que entrem?
Nada é como você pensa
Pedir que sentem
Aos que entraram sem licença
Pedir que quebrem
Que derrubem o meu muro
Atrás de tantas cercas
Quem é que pode estar seguro?

Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão – a falta de futuro
Eu quero a mesma humilhação – a falta de futuro
Eu quero o mesmo inferno
A mesma cela de prisão – a falta de futuro
O mesmo desespero

Ai está a letra. Aí está o problema de interpretação de grande parte dos crentes que conheço. Parece que o meio evangélico brasileiro sofre de uma miopia coletiva que os impede de perceber tanto a ironia quanto a linguagem figurada. O que me lembra de uma categoria humana da qual fazem parte cerca de 75% dos brasileiros: os analfabetos funcionais.

O analfabeto funcional é o cara que sabe ler, talvez tenha até uma faculdade, mas quando pega um texto é incapaz de entendê-lo. Isso é muito frequente. Já vi, por exemplo, crentes sinceros que acham que devem usar terno porque a Bíblia ordena “revesti-vos de TERNOS afetos de misericórdia”; assim como ouvi um rapaz muito zeloso dizer que Bíblias comentadas são malignas, porque “ai de quem acrescentar uma vírgula à Palavra”… Infelizmente, a sinceridade não livra-nos da ignorância.

O exemplo na letra dos Titãs é clássico. O letrista não está convidando as hostes infernais a entrarem na sua casa e acabarem com a sua família. De maneira alguma. O narrador é um cidadão da classe média ou média/alta que vive atrás de muros e de sistemas de segurança que o protegem do mundo desgraçado que corre pelas ruas assaltando, roubando, matando ou simplesmente mendigando. Ele é um alienado que não vê – ou não quer ver – a realidade que o cerca.

Então, ele tem um surto de autoconsciência e percebe que não pode ficar alheio à desgraça ao seu redor, que não pode isolar a si mesmo e à sua família do mundo miserável lá fora. Porque esse mundo, cedo ou tarde, vai entrar e acabar com ele e sua vida. Logo, ele quer ser atingido pelo inferno que os outros sofrem para sentir e fazer algo. Ele quer que a realidade entre e o atinja no seu isolamento.

O pior é que o título da música já escancara do que se trata. A música é um convite à ação. Ela diz que não se pode viver isolado num mundo desgraçado e achar que está tudo bem. Essa é a mensagem dos Titãs que nossos queridos irmãos não conseguem enxergar porque leram mas não entenderam. Baseados mais no zelo do que no entendimento. Acabamos esquecendo o problema que gera a equação:
zelo + ignorância = injustiça.

Agora, antes de se indignarem comigo também, releiam a letra da música e tirem suas próprias conclusões. Se quiserem malhar a Globo, me convidem. Mas façam isso com propriedade, por favor. Não com enganos simplórios.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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31 janeiro
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De Samaria ao Brasil

Quando encontramos exemplos de preconceito na Bíblia, ficamos um tanto chocados. É difícil entender alguns tipos de discriminação que aconteciam nos tempos de Jesus. Um deles era o fato de ser uma afronta social ele falar com mulheres. Mais ainda, conversar com uma mulher samaritana e desconhecida. Foi o que aconteceu quando Jesus passava por Samaria – também um lugar desdenhado e visto com maus olhos (veja a história em João 4). Nos deparamos com a estranheza: são preconceitos que nos parecem até irracionais. Inconcebíveis. Frutos de mentes atrasadas. Pergunto: somente eles? O que dirão de nós daqui a 100 anos, quando se ouvir falar, por exemplo, do uso restrito de “elevador social” e “elevador de serviço”?

A diferenciação de uso de elevadores por categoria pessoal é uma invenção brasileira que configurou-se em um símbolo da discriminação e da separação de classes. Coloca os proprietários em um elevador e a massa de mão-de-obra no outro. Resquício social da casa grande e da senzala, que mantinha patrões e escravos devidamente afastados (afinal, não se deseja que as visitas dos senhores de engenho tenham que dar de cara com os escravos). Ora, diferenciar “elevador social” de “serviço” é um uso que se caracteriza como discriminação social pura e simples. Para exemplificar: tenho a convicção de que a exigência do uso do elevador de serviço para um servente de pedreiro não se aplicará ao arquiteto da mesma obra; nem o gerente será obrigado a usar o elevador de funcionários do estrato social mais baixo. Mas nós não achamos nada disso estranho.

Outro fato que nos choca na Bíblia, que acontecia tanto em Samaria como nos confins da Terra, era a naturalidade da escravidão. Era absolutamente ético e legal ter escravos. Ou seja, era normal comprar gente, surrar gente, vender gente – a coisificação do ser humano. Soa como uma discriminação óbvia e gritante para nós. Mas o que diremos a Deus quando Ele nos perguntar por que nós achávamos natural um diretor ser remunerado em até 100 vezes mais do que o faxineiro dentro de uma mesma empresa? Que achávamos natural o empresário comprar um tapete de 15.000 reais para sua casa e o funcionário deste mesmo cidadão ter que trabalhar 3 anos para ganhar o mesmo? Temos uma resposta que, creio, não nos justificará: cada um deles fez por merecer.

Faça suas próprias perguntas. Eu tenho algumas, para te ajudar. Por exemplo: por que, em várias empresas, ninguém usa uniforme – exceto a servente? Por que curriculum vitae tem que ter foto? Por que criminoso com curso superior ganha cela especial? Por que universidades como a USP e a UFRGS tem apenas 1,5% de professores negros? Por que determinadas categorias profissionais exigem o uso do termo doutor precedendo seu nome?

Por isso e muito mais é que não podemos ver os homens do Mundo Antigo como alienígenas, portadores de preconceitos absurdos. Nós os temos, em abundância. Precisamos abrir os olhos, porque geralmente achamos que preconceituosos são apenas os outros. Nós, nunca.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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30 janeiro
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A outra face

Pr. Martin Luther King

Jesus Cristo foi um subversivo. Nadou contra a maré em praticamente todos os aspectos de sua época. Ouso dizer que suas pregações continuam sendo contrárias à maioria das nossas práticas também hoje. Creio que a mais absurda das suas propostas foi “dar a outra face” ao agressor (Mateus 5.39); não tenho dúvidas de que esta é a maior afirmação pacifista de todos os tempos. Tão contrária ao padrão humano que só consigo, à primeira vista, lembrar-me de dois nomes que a praticaram (além do próprio Cristo): Luther King e Gandhi.

O pastor Martin Luther King foi um dos maiores nomes da história do século XX. Curiosamente, sua luta contra o racismo institucional americano deu-se enfrentando o maior governo protestante do mundo. O centro da oratória e da proposta de King era jamais reagir às agressões dos brancos racistas, entregando seus corpos para serem espancados até que a verdade da igualdade entre os homens fosse aceita. Entre as preciosidades que ele nos legou está o discurso “I have a dream”, que você pode assistir legendado no Youtube:
Discurso de Martin Luther King

Martin Luther King recebeu em 1964 o Prêmio Nobel da Paz justamente por pregar a resistência não-violenta contra o preconceito racial. Dar a outra face, foi apenas o que ele propôs. Apenas?

Outro grande nome que defendeu a mesma ideia foi Mahatma Gandhi. Para nossa ignomínia, ele utilizou a proposta subversiva de dar a outra face contra um império cristão, o Império Britânico. Enquanto os cristãos mandavam balas e bombas, os hindus respondiam cruzando os braços. Gandhi nem discursava; apenas executava seus memoráveis jejuns. Conquistou a independência da Índia sem dar um tiro sequer. Deu a outra face, só isso. Só?

Dar a outra face, após apanhar na primeira, é absurdo; não é natural – até nossa biologia nos leva a reagir para sobreviver. O fato é que os três praticantes da proposta pacifista aqui citados – Cristo, Luther King e Gandhi – morreram de maneira violenta enquanto davam a outra face. Cristo foi crucificado por volta de 27 d.C.; Gandhi foi morto a tiros em 1948; e Luther King foi assassinado, também a tiros, em 1968. O “dar a outra face” é muito mais do que uma retórica, vai além da justiça a ser alcançada; ele é a afirmação de paz como objetivo final, expressão máxima de um amor disposto a morrer pelos amigos e pelos inimigos.

Difícil, não é? Como não combina muito com a retórica triunfalista por aí alardeada, dificilmente vemos alguém pregar (ou praticar) essa absurda proposta de Jesus. O amor é mesmo muito doido.


Crônica escrita por André Daniel Reinke

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